terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Água, os Caras, e... nós

Odeio dar uma de Cassandra, já disse em um outro post neste mesmo blog.
Faz alguns anos brincava que, em seguindo a carência do recurso água no mundo, chegaria o dia em que o mapa do Brasil acabaria um pouco além de Aquidauana-MS. Dali para frente haveria uma "internacionalização" dos recursos geográficos todos. Chegou a ser até uma das propostas de um dos gestores do Fundo Monetário Internacional na época em que estávamos pior do que hoje. Ainda tínhamos que ouvir calados todo tipo de bestialidade que tecnocratas de passagem ousassem dizer.

Várias gerações brasileiras viveram à sombra do engano de que a água no Brasil nunca iria acabar. Engano reforçado pela pouca noção que as afirmações vindas, de quase todos os lados, de que o Brasil tinha o maior índice hídrico do mundo, lhes forneciam. E, principalmente, a inação do governo em relação à preservação, ao bom uso e racionalização do consumo do recurso. Vivíamos junto a presença do Rio-Mar, um pantanal sem fim, rios caudalosos, chuvas e umidade contínuas.
Água por todo lado.
Poderíamos até nascer guelras!



Dadas as condições certas, muitos elementos sem relação alguma aparente, uns com os outros, somados criam "ambientes" cuja solução é lenta e desconfortável. A recuperação dos índices hídricos a níveis anteriores a 2k será um destes ambientes. Aqui teremos a real noção do que "rede de redes" significa. Assim como 3 pontos percentuais podem significar pouco mais de 3 milhões de almas.
Me pergunto, e quando chover de novo, será que vai inundar a cidade? Voltarão os desmoronamentos?
De novo?

E, como desgraça pouca é bobagem, a eletricidade é gerada a partir de hidroelétricas, movidas a água de rio.... Preciso continuar?


Agora, uma das regiões mais industrializadas e densamente povoada do país passa por uma estiagem prolongada e amostra de falta de gestão previdente do recurso água. São Paulo, capital do estado de mesmo nome, hoje raciona e consome suas últimas reservas do "inacabável" recurso. Enquanto o governo estadual informa que não há racionamento, as torneiras paulistanas suspiram que a água acabou.

No rol das prioridades de um dos governos mais longos do estado, a gestão e previdência do recurso foi relegada a menor papel. Simples coadjuvante ante prioridades politicas e partidárias. O partido antes do povo representado por ele.



Paradoxalmente, esse mesmo povo reelege, para novo mandato, aqueles mesmos que até agora não sentiram necessidade ou vontade de zelar por ele. Ante uma máquina propagandista hipnotizante bateu ponto contra si próprio. Agora, e contra seus filhos depois, pois assim que as chuvas voltarem, se voltarem no volume necessário, para preencher cursos e reservatórios, o pobrema voltará a ser "do governo" (do federal, no caso). E nada mais será exigido nem feito.

Os milagreiros de plantão terão feito milagre$ e os políticos farão campanha adjudicando-se mais essa façanha: a de atrave$$ar leitos secos e chegar à outra margem encharcados!

Por outro lado, a democracia no Brasil, teoricamente, segue o esquema usual dos três corpos trabalhando em conjunto: Executivo, Legislativo e Judiciário. Todos três representando a vontade coletiva, soma de cada um de nós, o povo.
A cartilha básica da "Democracia e Você - Introdução à cidadania".
Acabamos de passar por uma eleição de representantes para o Executivo que mostrou uma divisão, quase igual de vontades antagônicas. Colorações históricas, mal-entendidos e pior apreendidos de situações politicas. Poucas vezes antes na história republicana brasileira tinha acontecido de haver tal cisma.



As repercussões ainda se fazem sentir após varias semanas do pleito eleitoral terminado. Inconformados com o resultado, elementos vão à mídia e às redes sociais ventilar suas idéias conspiratórias e conclamar prosélitos e incautos para reverter o resultado. Alguns chegam ao ponto de exigir o concurso das forças armadas num claro retrocesso histórico e cívico, passando por alto, e ao mesmo tempo ignorando, o preço pago da última vez que tal aconteceu. Acreditam ser este, um preço menor a pagar, frente a uma eventual guinada "bolivariana", orquestrada por partidos ditos "à esquerda de quem entra".

Somos culpados da nossa própria desgraça. Como sociedade permitimos que nosso destino fosse ditado por pouco mais que sicários, que - uma vez eleitos - pensam somente no "primeiro eu".
Auxiliados por uma mídia sectária, parcial ou omissa, dependendo das conveniências do momento.
Nos isentamos de qualquer responsabilidade e, tempos depois, fazemos passeata com as caras pintadas ou encapuzados black-blocs. Anônimos todos. Vamos atrás de descontos em passagens quando o que queremos, e realmente precisamos, fica escondido com medo em casa.


Individualmente nos repetimos: "não é culpa minha", como mantra. Agradecemos o calendário que ganhamos de brinde no banco e evitamos, ativamente, participar. Enquanto o sistema, diligentemente criado por nós mesmos, nos repete: "não reaja, qualquer resistência será inútil".





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Sobre a "internacionalização" da Amazônia, na Veja em maio de 2008.
Sobre a "internacionalização" da Amazônia, na Wikipédia
Significado de Democracia na Significados.com.br
Significado de Revolução Bolivariana no Wikipédia