sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Anscombe ou as várias leituras da mesma informação

Sempre me surpreendo quando coisas que acredito serem óbvias para todos demostram ser difíceis de enxergar. Ou então, o que pode ser pior, estou redondamente enganado. Um recente caso é o seguinte. Vejam e me digam se estou muito fora do normal.


Vejam o seguinte infográfico. Os primeiros 20 países, por exemplo. 15 são europeus, 3 são orientais ou da Oceania, 2 são da América do Norte. Eis os primeiros 20.
  1. Finlândia (17 hab/km2 e 5.5 milhões de hab),
  2. Japão (340 hab/km2 e 127 milhões de hab.), 
  3. Suécia (20,6 hab/km2 e 9,2 milhões de hab), 
  4. Coréia do Sul (486 hab/km2 e 48,3 milhões de hab), 
  5. Polônia (122 hab/km1 e 38,5 milhões de hab), 
  6. Alemanha (229 hab/km2 e 82 milhões de hab), 
  7. Austrália (2,96 hab/km2 e 23,4 milhões de hab), 
  8. Estônia (29 hab/km2 e 1,37 milhões de hab), 
  9. Eslovênia (88,5 hab/km2 e 2,02 milhões de hab), 
  10. Canadá (3,2 hab/km2 e 34 milhões de hab), 
  11. Nova Zelândia (6,5 hab/km2 e 4,41 milhões de hab.), 
  12. Islândia (3,2 hab/km2 e 319,575 hab), 
  13. República Checa (131 hab/km2 e 10,26 milhões de hab), 
  14. Dinamarca (129,16 hab/km2 e 5,6 milhões de hab), 
  15. Bélgica (342 hab/km2 e 10,4 milhões de hab), 
  16. Suíça (186 hab/km2 e 8 milhões de hab), 
  17. Noruega (12 hab/km2 e 5,13 milhões de hab), 
  18. Holanda (488 hab/km2 e 16,5 milhões de hab), 
  19. Estados Unidos (33 hab/km2 e 308,74 milhões de hab), 
  20. Hungria (109 hab/m2 e 10 milhões de hab),
Estes são os primeiros vinte países no infográfico; Os primeiros países no índice de educação, segundo o cartaz. Depois vem: 
  1. Irlanda (29 hab/m2 e 4,59 milhões de hab), 
  2. Eslováquia (111 hab/m2 e 5,44 milhões de hab), 
  3. Áustria (100 hab/km2 e 8,39 milhões de hab), 
  4. Grécia (84 hab/m2 e 10,78 milhões de hab), 
  5. Rússia (8,3 hab/km2 e 143 milhões de hab),
  6. Reino Unido (255,6 hab/km2 e 63,18 milhões de hab), 
  7. França (115 hab/km2 e 65,44 milhões de hab), 
  8. Espanha (90 hab/km2 e 47,26 milhões de hab), 
  9. Itália (200 hab/km2 e 60,33 milhões de hab), 
  10. Israel (391 hab/km2 e 8,13 milhões de hab), 
  11. Luxemburgo (186 hab/km2 e 505 mil hab), 
  12. Portugal (115 hab/km2 e 10,48 milhões de hab), 
  13. Chile (22 hab/km2 e 17,24 milhões de hab), 
  14. Turquia (96,5 hab/km2 e 65,72 milhões de hab), 
  15. Brasil (23,8 hab/km2 e 202,76 milhões de hab)
  16. México (55 hab/km2 e 118, 39 milhões de hab).
O mundo, hoje em dia, tem 192 países* reconhecidos pelas organizações mundiais, ao todo 216, segundo outros. Alguns são enormes, quase continentais. Enquanto outros, menores, mal aparecem num mapa mundi.

Brasil tem quase 24 habitantes por quilometro quadrado e somente 202,76 milhões de habitantes. Em outro post deste mesmo blog havia comentado sobre as formas distintas de ler a mesma informação. E acho que aqui se nos apresenta mais um exemplo gritante daquela premissa. O Brasil ocupa o 35º lugar no índice do gráfico.

Vamos fazer algumas leituras rápidas?
  • O Brasil é o quarto país americano no gráfico (Canadá/Estados Unidos/Chile/Brasil/México, respectivamente). Um, dentre cinco únicos.
  • Comparativamente, nossa população só não é maior do que a população dos Estados Unidos, que ocupa a 19ª posição no gráfico.
  • Dentre os 192 países, Brasil é o 35º em educação. Estamos no primeiro de 5, quase 6 (5.4857) grupos, se dividirmos a quantidade de países pela posição que ocupamos no gráfico. Isso é óbvio.
  • Chile, o primeiro país latino-americano no gráfico tem uma população de 17,24 milhões de habitantes, enquanto a do Brasil é de 202,76 milhões. Seria interessante ver a piramide etária de ambos e comparar.
  • Em termos de densidade populacional a Holanda ocuparia o primeiro lugar com 488 habitantes por quilometro quadrado e uma população total de 16,5 milhões de habitantes. É um país pequeno e populoso.
  • O próprio título do infográfico é enganoso. Poderiamos, então dizer que antes o Brasil foi do PSDB, ou ainda teriamos o Brasil da Ditadura. Isso melhoraria nossa condição neste ou noutros infográficos parecidos?
O Brasil não é deste ou daquele partidos políticos, apesar de alguns políticos acharem que sim. O Brasil é de todos nós, brasileiros. Somos responsáveis por ele. Pela sua educação, saúde, sustentabilidade enfim. Somos sim, cuidadores de nosso irmão, uns dos outros. E estou farto de que, por ideologias ou colorações políticas, falem mal dele. TODOS os países do mundo têm problemas! Uns mais outros menos, ninguém está isento de sua cota de mazelas.
Ficar gritando apalermado que o "Rei está nú!" e dar as costas à solução não resolve e nem nos torna melhores. A solução somos nós todos!

Falar que o Brasil do PT está mal de educação é fácil. Qualquer idiota consegue.
Fazer algo ao respeito é outra conversa. Falar que a vida é bela em Miami ou Nova Iorque e o céu mais azul em Roma ou Madrid é bobagem. Basófia de exibicionista. Morar lá, sem ter que voltar aqui para seu sustento, quero ver. Onde a fila dos industriais que abandonariam o país seria acolhida para continuarem seus ardís?

Mas, vejam o infográfico novamente com mais estas informações e tirem suas conclusões. Não, ainda continuamos sendo o 35º país em educação, mas agora não é tão mau assim, né? Temos muito a melhorar, mas já melhoramos muito. E sem ajuda do PT ou PSDB ou P-qualquer-outra-coisa. Esses aumentam os salários às custas dos outros.

Aqueles professores que, apesar de tudo, insistiram, e os alunos que perceberam que esse era o caminho, nos mantêm aqui. Os próximos (espero) nos levarão a melhores posições. Há uma mudança social e econômica em andamento no país. A educação é uma das forças por trás dela.

Em 1973 o estaticista Francis Anscombe apresentou seu famoso "Quarteto de Anscombe" para demostrar tanto a importância de plotagem de dados antes da análise quanto o efeito dos outliers nas propriedades estatísticas. Simplificando; as múltiplas leituras que a mesma informação pode ter.


O exemplo acima é uma dessas ocasiões em que a mesma informação pode ser lida de várias formas. Pena que acabemos consumindo sem pensar no que consumimos. Assim fica muito fácil vender a "descoberta a cura do câncer!", ou "novo escândalo no sistema financeiro" ou então, chegando a extremos do ridículo: "qualquer país é melhor que este daqui".
Mesmo desempregado, continuo trabalhando para e acreditando neste aqui.
E você?



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Referências:





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Links relacionados:





* A ONU conta atualmente (em 2015) com 193 países membros. Enquanto a ISO reconhece 246.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Quando comecei a amar-me

Poema de Charlie Chaplin, escrito no seu 70º aniversário, em 16 de abril de 1959:



Quando comecei a amar-me
Eu entendi que em qualquer momento da vida, estou sempre
no lugar certo na hora certa.
Compreendi que tudo o que acontece está correto.
Desde então, eu fiquei mais calmo.
Hoje eu sei que isso se chama CONFIANÇA.


Quando eu comecei a me amar, entendi o quanto isso pode ofender alguém
Quando eu tentei impôr minha vontade sobre esta pessoa,
Mesmo sabendo que não era o momento certo e a pessoa não estava preparada para isso,
E que, muitas vezes, essa pessoa era eu mesmo.
Hoje, sei que isto significa DESAPEGO.

Quando comecei a amar-me
Eu pude compreender que dor emocional e tristeza
são apenas avisos para que eu não viva contra minha própria verdade.
Hoje, sei que a isso se dá o nome de AUTENTICIDADE.

Quando comecei a amar-me
Eu parei de ansiar por outra vida
e percebi que tudo ao meu redor é um convite ao crescimento.
Hoje eu sei que isso se chama MATURIDADE.

Quando comecei a amar-me
Parei de privar-me do meu tempo livre
e parei de traçar magníficos projetos para o futuro.
Hoje faço apenas o que é diversão e alegria para mim,
o que eu amo e o que deixa meu coração contente,
do meu jeito e no meu tempo.
Hoje eu sei que isso se chama HONESTIDADE.

Tratei de fugir de tudo o que não é saudável para mim,
de alimentos, coisas, pessoas, situações
e de tudo que me puxava para baixo e para longe de mim mesmo.
No início, pensava ser "egoísmo saudável",
Mas hoje eu sei que trata-se de de AMOR PRÓPRIO.

Quando comecei a amar-me
Parei de querer ter sempre razão
Dessa forma, cometi menos enganos.
Hoje eu reconheço que isso se chama HUMILDADE.

Quando comecei a amar-me
Recusei-me a viver no passado
e preocupar-me com meu futuro.
Agora eu vivo somente este momento onde tudo acontece.
Assim que eu vivo todos os dias e isto se chama CONSCIÊNCIA.

Quando comecei a amar-me
Reconheci, que meus pensamentos
podem me fazer infeliz e doente.
Quando eu precisei da minha força interior,
minha mente encontrou um importante parceiro.
Hoje eu chamo esta conexão de SABEDORIA DO CORAÇÃO.

Não preciso mais temer discussões,
conflitos e problemas comigo mesmo e com os outros,
pois até as estrelas às vezes chocam-se umas contra as outras
e criam novos mundos.
Hoje eu sei que isto é VIDA!



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Agora que já treinou, ligue o som anexo a seguir, e leia de novo.


Seja feliz...


lcb

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

qwerty

Em resposta a algumas propostas de mudança no sistema pedagógico nas escolas de ensino básico. Sobre a eliminação do ensino de escrita cursiva da grade de ensino. (Veja um artigo aqui e esta discussão no LinkedIn)

Espero ter entendido errado, mas... escrever a mão, cursivo ou bloco, na minha humilde opinião, é uma arte que não terminamos de aprender nunca.

O treinamento se faz no gerúndio diário e os elementos biológicos -pois mesmo para escrever no ar, precisamos usar certas partes específicas do corpo em conjunto- são usados como em nenhuma outra ferramenta. A visão altamente compartamentalizada do burrocrata (sic) idealizador do projeto de eliminar o ensino de escrita cursiva nas escolas de ensino básico, me parece a culpada pelo seu engendramento. Se fosse traduzir em termos chulos, diria que: "é um verdadeiro tiro no pé (nos quatro)"!


Se não, vejamos:
Somente na literatura acadêmica há toneladas de material que consegue contradizer essa proposta. Historicamente então, nos perderiamos na montanha de documentos... escritos a mão! O simples fato de existirem bem antes, e durante, a criação e evolução tecnológica, se é que usou este argumento para validá-la, deveria ser suficiente para poder inferir sua importância nos processos pedagógicos e criativos. A leitura segmental, ou a falta e escamoteamento dela (a leitura) como um todo, seria outro argumento.
E contudo, não se enxerga o bosque porque as árvores atrapalham... escritos.

Tirar das crianças em idade de alfabetização o aprendizado desta ferramenta que irão usar para sempre, e que lhes libertará um potencial inesgotável de inovações (sim, inovações!), é um crime. Um crime que somente um cego prosáico, inepto, sem visão de futuro pode cometer impunemente.
Vejam que nem toquei nos cursos, nem nos cadernos e exercícios, de caligrafia, aqueles entes em extinção senão já extintos e estes dos quais ninguém mais se lembra.
Posso, outrossim, usar como argumento este artigo publicado na Espanha: "Sistema NeuroEscritural - Evaluación del Talento, a traves de la Escritura" (leia na integra aqui).


Me volto às inovações que, por não existirem, precisam ser "desenhadas" a mão, a lápis, no cursivo!
Mas, dirão; existem ferramentas tecnológicas que fazem isso muito melhor. Por enquanto, e até agora (ou me mostrem o contrario): pensar, pensamos melhor nas nossas cabeças. E há uma satisfação atávica ao ver o que desenvolvemos surgir à nossa frente, das nossas mãos, produto da nossa intenção gestual. Sem intermediário tecnológico algum.

Pelo menos, me sinto assim. É tão bom que acredito que compartilho com meus semelhantes a mesma sensação.


Escrever um texto, desenhar um projeto, analisar processos de passos complexos... não importa o difícil, nem o tempo. O resultado, mesmo que com falhas aqui e ali, nos dará o mesmo orgulho que uma vez sentiamos ao descobrir que aquela sequência de símbolos contidas dentro do grafite infantil vinha cheia de significados. Esses traços significam!

Ao aprender a ler e escrever somos re-introduzidos à humanidade, como se nascidos novamente. Um rito de passagem universal à espécie humana.
Eu disse escrever, não digitar!

PS
E ia me esquecendo;
No cursivo, mudamos o estilo, a inclinação, as curvas. Todo um novo pensar. Intenção e gesto.
Mas, mude o QWERTY de lugar e teremos que re-aprender mecanicamente a digitar... do mesmo modo. E, lamentavelmente continuaremos pensando mecanicamente igual.

Afinal, para mim; "Torpedo" não pode ser transformado em eufemismo para coisa carinhosa nenhuma! Continua sendo algo que explode na nossa cara exigindo atenção urgente para coisas sem a menor importância.





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domingo, 16 de novembro de 2014

Sociedade Paulistana

Nunca os espaços publico e privados foram tão confundidos quanto o são nos dias de hoje. As pessoas fazem nas ruas coisas que nem mesmo no espaço de suas residências deveriam fazer.
Usam mal, e até destroem o patrimônio público, que é de todos e ao mesmo tempo de ninguém. 
Controvérsia? Não na mente dos que assim agem. Tudo é deles, e o espaço  também.

Conversam gritando com outros "cidadãos" que se encontram no outro lado da rua. Atendem telefone dentro do transporte coletivo, falam de assuntos privados, nem sempre agradáveis. Falam, nesses mesmos coletivos, em voz alta sobre os mais variados e inoportunos assuntos.
Pesquisa recente mostrou que mais de 70% da população sem o ensino médio, acha justo que políticos aufiram vantagens para si próprios em suas posições, e fariam o mesmo se lá estivessem. O percentual de pessoas graduadas com a mesma opinião foi de 3%, o que eu, particularmente, ainda acho elevado.

Como exigir ética e discernimento dos políticos quando falta aos que os elegem? Acho que por isso são eleitos.


O bem publico, assim como o espaço, deveria permanecer público, ou seja, de todos, do povo. Mas não é bem assim que as coisas ocorrem.
Copos descartáveis, latas e toda a sorte de produtos descartáveis são lançados no espaço público. Se não fossem aqueles que da coleta deles dependem, a cidade estaria ainda mais depredada.

Há também aqueles que apesar das campanhas, ainda desperdiçam água, com a desculpa de que "eles" é que pagam a conta da água. Na realidade a conta da água será paga por nossos filhos e netos, e os filhos e netos deles também. Mas não há discernimento suficiente para concluírem isso, argumentar em contrário não resultará em nada além de uma discussão, isso se o "cidadão" não partir para a "argumentação física". Então é melhor deixar pra lá.

Todos nós temos o direito a nos divertirmos, escutar os musica, a conversar os com quem e sobre o que quisermos. Temos o direito de namorar, beijar, dar uns amassos, beber, desde que circunscritos ao espaço privado. Esse espaço privado não se limita ao ambiente físico onde estamos, o som alto transcende as paredes e invade o espaço de outras pessoas, que, nem sempre, tem o mesmo e duvidoso, gosto musical. Que embora aceitem o amor, talvez não estejam dispostos a presenciar cenas "românticas" representadas em publico.



Gritar e falar alto desnecessariamente, nunca foi sinal de boa educação. Pessoas educadas se aproximam umas das outras para falar, e falam alto o suficiente para o seu interlocutor ouvir.
É comum ouvir "Todo mundo faz assim!"

Infelizmente falta educação e cultura aos nossos cidadãos paulistanos, sem isso não há discernimento, sem discernimento não há respeito, pois falta a noção de certo e errado. Falta a noção da diferença entre o espaço publico d o privado.

Fui ensinado que meu direito começa e acaba nos pontos, onde termina e começa o de outra pessoa. Que o meu espaço privado era sagrado, como sagrado era o dos outros também. Que há coisas que não devia fazer em publico, no minimo para esconder a própria ignorância, me preservando de vexames.

Mas as pessoas hoje nem notam que quase caem em uma fila, por estarem se empurrando mutuamente. Molham ou sujam outras pessoas, quando arremessam pontas de cigarro, cospem, jogam água fora, restos de comida e etc., pedem desculpas, mas não mudam de atitude.
Pessoas que assistem ao noticiário, mas para elas aquilo é "só televisão". O aquecimento global, a escassez de água, os golpes financeiros e da internet, pedofilia, violência familiar, roubo, sequestros, tráfego de drogas, nada tem a ver com o cotidiano delas, é só um programa de TV.

Também não fazem qualquer relação entre superproteção aos filhos, com uma atitude permissiva, não exigindo nada, protegendo-os mesmo quando eles estão errados. Coitado do filho, não acha emprego, mas também não procura. Escreve "onesto", fala "pobrema", só sabe fazer contas com duas operações básicas; no computador só sabe usar o MSN, o FaceBook, ou o Whatsapp, com o dialeto próprio da comunidade que o utiliza e o (defunto) Orkut. Mas não aceita ganhar menos de seiscentos "real", vale-refeição e sem trabalhar aos sábados.



Saudades da época em que tudo era diferente. Parece que eu fiz uma confusão danada. Mas tente refletir e verá que tudo escrito aqui forma um círculo, não importa o ponto de partida, você passará pelos mesmos pontos e chegará ao ponto de onde partiu.

A educação dada pela familia esta cada vez mais permissiva e protetora, os pais são ausentes, ou porque querem, ou porque trabalham muito. Ambos não se sentem à vontade para exigir nada dos filhos, primeiro para não serem tidos como chatos e muito exigentes, segundo porque para ser exigente com os outros, é preciso ser disciplinado e ter um nivel elevado de exigência consigo. Isso adiciona um pouco mais de estresse a vida já estressante na grande São Paulo. Entretanto precisamos fazer uma escolha: Ou somos exigentes agora e preparamos um adulto independente, ou somos permissivos e criamos um adulto dependente de nós e de nossa futura aposentadoria. Pois nossos filhos não terão condições e atitude necessárias à sua sobrevivência. A superproteção  podderá levá-los a ser dependentes de antidepressivos, por não saberem lidar com as adversidades do mundo. Ou ainda, não terem limites para obterem o que querem.


É por isso que eles perdem a noção do certo e errado, do público e do privado, chegam à vida adulta sem discernimento. A forma como foram educados, lhes faculta fazerem o que quiserem, até que alguem mais forte, ou poderoso, interrompa suas "experiências". Ai, voltam-se contra o próximo mais fraco, ou contra algo.
É a lei da selva.

Tudo de bom que uma pessoa pode ter começa com uma boa educação em casa, passa por um bom aprendizado. Com educação e conhecimento, sendo exigido em suas responsabilidades, o jovem ganhará discernimento, será alguem competente e independente. Será enfim, um cidadão, um cidadão de bem.






Marx Durkheim Hobsbawm Weber da Silva
Paulistano inconformado
Personagem criado por Gerald Corelli
Extraído do texto: Análise Imponderada da Sociedade Paulistana

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Criatividade e escola: caminhos incompatíveis?!

Em resposta a artigo do mesmo nome, comecei a escrever este comentário que de tão cumprido acabou virando post. Valia a pena fazê-lo. A discussão ainda vai longe, tem muito o que ser dito.

As escolas, como as conhecemos hoje em dia, elas próprias, seguem "escolas" (de pensamentos e filosofias) pedagógicas. Trilham, por assim dizer, caminhos impostos de escopos conhecidos, de ideologias pré-estabelecidas. A verdade conhecida, da qual as bibliotecas estão repletas. O conhecimento explícito, fixo. 

Sem sustos.

A criatividade e a inovação, por definição são o desconhecido. Queremos ensinar para verdades desconhecidas? Teriamos antes, que quebrar paradigmas seculares, entre o ensinado e aprendido, modos testados (formas e atitudes). Acolher o processo criativo do racionalismo de Spinoza ao romantismo Nietzcheano. E mostrar como não acontecem cataclismas ao criar pontes entre fatos e valores. Paradoxalmente, de verdades desconhecidas as bibliotecas estão repletas, de sementes em forma de informação.
Com sustos... muitos.


Na escola, os professores serão os guias facilitadores. Eles deverão saber e instigarão ao uso da ferramenta que permitirá abrir as portas para grandes criações. Antes de tecnologias e muletas extra-corpos, o cérebro como instrumento básico e principal de qualquer questionamento criativo. Longe da linha de produção seriada, a possibilidade da criação. Nem precisava ser genial, seria única e a partir dela, a genialidade seria possível.

Conseguiria-se assim uma quebra de padrões e hierarquias. O indivíduo como parte de um elemento coletivo maior de unidades únicas. A aspiração comum sendo o progresso e desenvolvimento de cada um desses coletivos, aproveitando as diferenças como molas construtoras. As crianças são naturalmente mais abertas à criatividade. Sua fé infantil não teme a aprendizagem quando apresentada com habilidade e sabedoria. Ao reconhecer, o outro, como igual e com o igual fazer parceria no desenvolvimento de ideias e resultados, o respeito e a troca se tornam muito mais fáceis. A nossa visão de mundo se alarga ao incorporar a visão do "outro" e o mundo visto ser nosso. Os antigos pedestais que criavam hierarquia na escola seriam extintos quando todos se descobrissem aprendizes.
Os sustos se transformam em surpresas.

É esta flexibilidade conseguida com o aprendizado do livre pensar, o questionamento fractal. A escola pode entrar como porto de partida para essa grande aventura.


Qual a mediação possível?

É difícil pensar e falar a respeito de individualidades se o fizermos dentro do padrões comuns desta nossa massificada sociedade industrial. Seguindo os padrões atuais tudo deve estar dentro de normas e conformidades, pesos e medidas de controle e qualidade, para ser usado -consumido- por individualidades únicas. Diferentes todas entre si.
Um contra-senso que ninguém, a não ser criativos, discutem. 

Não haveria mais as amarras de temor, pois aceitar, somar e compartilhar o que de novo vier de todas as direções possíveis seria o natural. Ensinaria-se desde tenra infância. Perceber, usando associações gestálticas (sic), o tempo do outro e ir ao seu encontro para ampliar o horizonte de todos deixará de ser o grande desafio. A descoberta de significados em coisas e fenômenos que a maioria considera certos. Estáticos.
E todos os dias as condições certas para a frutificação do novo.





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sábado, 8 de novembro de 2014

Nephele



Nefelibata:  adj. e s.m. e s.f. Que ou pessoa que vive nas nuvens; cujo espírito vagueia num mundo ideal.

O problema dos nefelibatas é viver num mundo que não existe.
Hmm... Acredito que os problemas decorrem mais porque insistimos, infantilmente, em juntar ambos os lados de nossa existência: trazer nosso mundo inexistente para a vida real ou viver definitivamente no mundo imaginário.
Em qualquer um dos casos, haverá problemas na vida real. Essa que todo mundo é obrigado a viver. Levantar de manhã e, cansados, dormir à noite. Até não acordarmos mais.
Isso... da fecundação ao enterro.
Vida;

Preste atenção em como muitos nefelibatas  tem tido suas vidas conturbadas, primeiro por serem nefelibatas e depois por tentar aplicar o que acham ser o certo. Alguns exemplos: Nicola Tesla é um deles, Jules Verne, uma enxurrada de poetas e artistas de toda sorte, Lloyd-Wright, Proudhon, HG Wells podem ser alguns deles. Lutero é um os casos mais evidentes... e veja o cisma que criou.  Nenhum deles o fez de caso pensado para causar mal algum.
Não era essa a intenção, muito pelo contrario. Teimosamente insistiram em fazer o que achavam certo.



Veja como eles tiveram sua cota de problemas por ser da forma que eram. Ver e pensar o ambiente que os cercava da forma como o faziam. Uma forma ingênua e inquisitiva, digna de qualquer criança que se preze.
Quantas vezes nossos cuidados de pais não tolhem perguntas infantis, que haveriam de se tornar caminhos a explorar, e para às quais não temos mais respostas. Ou quantos, "você me cansa..." quando não compreendemos o destino que esta viagem há de nos levar.

Ode aos nefelibatas desconhecidos!
Aqueles que andam com um começo de sorriso, param para escutar as serenatas dos pássaros e são capazes de abraçar árvores que veem pela primeira vez, brincar na chuva, e se surpreender, crianças, com o cenário escrito a mão pela natureza.

E, ainda assim capazes de tanta confusão, dor e angustia... 




terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Água, os Caras, e... nós

Odeio dar uma de Cassandra, já disse em um outro post neste mesmo blog.
Faz alguns anos brincava que, em seguindo a carência do recurso água no mundo, chegaria o dia em que o mapa do Brasil acabaria um pouco além de Aquidauana-MS. Dali para frente haveria uma "internacionalização" dos recursos geográficos todos. Chegou a ser até uma das propostas de um dos gestores do Fundo Monetário Internacional na época em que estávamos pior do que hoje. Ainda tínhamos que ouvir calados todo tipo de bestialidade que tecnocratas de passagem ousassem dizer.

Várias gerações brasileiras viveram à sombra do engano de que a água no Brasil nunca iria acabar. Engano reforçado pela pouca noção que as afirmações vindas, de quase todos os lados, de que o Brasil tinha o maior índice hídrico do mundo, lhes forneciam. E, principalmente, a inação do governo em relação à preservação, ao bom uso e racionalização do consumo do recurso. Vivíamos junto a presença do Rio-Mar, um pantanal sem fim, rios caudalosos, chuvas e umidade contínuas.
Água por todo lado.
Poderíamos até nascer guelras!



Dadas as condições certas, muitos elementos sem relação alguma aparente, uns com os outros, somados criam "ambientes" cuja solução é lenta e desconfortável. A recuperação dos índices hídricos a níveis anteriores a 2k será um destes ambientes. Aqui teremos a real noção do que "rede de redes" significa. Assim como 3 pontos percentuais podem significar pouco mais de 3 milhões de almas.
Me pergunto, e quando chover de novo, será que vai inundar a cidade? Voltarão os desmoronamentos?
De novo?

E, como desgraça pouca é bobagem, a eletricidade é gerada a partir de hidroelétricas, movidas a água de rio.... Preciso continuar?


Agora, uma das regiões mais industrializadas e densamente povoada do país passa por uma estiagem prolongada e amostra de falta de gestão previdente do recurso água. São Paulo, capital do estado de mesmo nome, hoje raciona e consome suas últimas reservas do "inacabável" recurso. Enquanto o governo estadual informa que não há racionamento, as torneiras paulistanas suspiram que a água acabou.

No rol das prioridades de um dos governos mais longos do estado, a gestão e previdência do recurso foi relegada a menor papel. Simples coadjuvante ante prioridades politicas e partidárias. O partido antes do povo representado por ele.



Paradoxalmente, esse mesmo povo reelege, para novo mandato, aqueles mesmos que até agora não sentiram necessidade ou vontade de zelar por ele. Ante uma máquina propagandista hipnotizante bateu ponto contra si próprio. Agora, e contra seus filhos depois, pois assim que as chuvas voltarem, se voltarem no volume necessário, para preencher cursos e reservatórios, o pobrema voltará a ser "do governo" (do federal, no caso). E nada mais será exigido nem feito.

Os milagreiros de plantão terão feito milagre$ e os políticos farão campanha adjudicando-se mais essa façanha: a de atrave$$ar leitos secos e chegar à outra margem encharcados!

Por outro lado, a democracia no Brasil, teoricamente, segue o esquema usual dos três corpos trabalhando em conjunto: Executivo, Legislativo e Judiciário. Todos três representando a vontade coletiva, soma de cada um de nós, o povo.
A cartilha básica da "Democracia e Você - Introdução à cidadania".
Acabamos de passar por uma eleição de representantes para o Executivo que mostrou uma divisão, quase igual de vontades antagônicas. Colorações históricas, mal-entendidos e pior apreendidos de situações politicas. Poucas vezes antes na história republicana brasileira tinha acontecido de haver tal cisma.



As repercussões ainda se fazem sentir após varias semanas do pleito eleitoral terminado. Inconformados com o resultado, elementos vão à mídia e às redes sociais ventilar suas idéias conspiratórias e conclamar prosélitos e incautos para reverter o resultado. Alguns chegam ao ponto de exigir o concurso das forças armadas num claro retrocesso histórico e cívico, passando por alto, e ao mesmo tempo ignorando, o preço pago da última vez que tal aconteceu. Acreditam ser este, um preço menor a pagar, frente a uma eventual guinada "bolivariana", orquestrada por partidos ditos "à esquerda de quem entra".

Somos culpados da nossa própria desgraça. Como sociedade permitimos que nosso destino fosse ditado por pouco mais que sicários, que - uma vez eleitos - pensam somente no "primeiro eu".
Auxiliados por uma mídia sectária, parcial ou omissa, dependendo das conveniências do momento.
Nos isentamos de qualquer responsabilidade e, tempos depois, fazemos passeata com as caras pintadas ou encapuzados black-blocs. Anônimos todos. Vamos atrás de descontos em passagens quando o que queremos, e realmente precisamos, fica escondido com medo em casa.


Individualmente nos repetimos: "não é culpa minha", como mantra. Agradecemos o calendário que ganhamos de brinde no banco e evitamos, ativamente, participar. Enquanto o sistema, diligentemente criado por nós mesmos, nos repete: "não reaja, qualquer resistência será inútil".





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Sobre a "internacionalização" da Amazônia, na Veja em maio de 2008.
Sobre a "internacionalização" da Amazônia, na Wikipédia
Significado de Democracia na Significados.com.br
Significado de Revolução Bolivariana no Wikipédia

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Fera Neném

"Respaldada por mais de 54,5 milhões de eleitores a Presidenta Dilma Rousseff..." começava o comentarista televisivo  sua curta análise sobre a nova situação que se descortinava após o dia da eleição. Um pleito renhido até as últimas horas do certame, com direito a dedo no olho e xingamentos à progenitores de ambos os lados. Os números da eleição, matematicamente, mostraram uma divisão quase diametral do eleitorado no país. Paradoxo interessante se bem analisarmos as propostas do candidato perdedor. E, mesmo, as propostas dos outros candidatos perdedores, também.
Como explicar o resultado da votação, que quase nos leva a um terceiro turno inesperado?

Ainda na sua primeira entrevista, já como Presidenta (Presidenta pode sim!) reeleita, teve que driblar insistentes perguntas inoportunas da jornalista do plantão sobre nome e perfil de futuros ministros disto e daquilo. O termo "pescotapa" me veio à cabeça e, acredito que, pelo sorriso tigresco dela, também passou por lá.
Você já viu um tigre sorrir? William Blake fez uma descrição em um dos seus poemas, muito ilustrativa. Tivesse antes visto este sorriso, teria sido uma descrição bem melhor. E esta foi a tônica do tratamento dado pela mídia à Presidenta em exercício e reeleita.
Minto, me desculpem, essa entrevista foi "amistosa".



O que vimos anteriormente, durante o desenrolar das campanhas, foi um rosário de acusações e denúncias. Bombásticas edições requentadas e confusas, sem pé nem cabeça que, à analise mais detalhada, mostravam ranço diverticionista e partidarista. Odorico me ajuda na empreitada. Premiações por delações a comprovados, e reincidentes, delinqüentes de terno e gravata eram as provas principais e os recheios dos dossiê apresentados semanalmente pela mídia opositora.
A trama é complicada. Seus objetivos se alastrariam em várias direções ao mesmo tempo. Conseguir mostrar falcatruas e desonestidades executadas por membros do executivo (deste!) em conluio com elementos da iniciativa privada. Benefícios particulares e desvios do erário em detrimento da união como um todo. Enfim, o menu de sempre que se dá rédeas soltas à ganância. Inuendos e conspirações eram mero detalhe das informações publicadas. Verdadeiros "Samba" do Stanislaw, com o fim de confundir incautos e curiosos e, ao mesmo tempo, vender semanários.
Até agora, reduzindo as informações mostradas ao essencial minimo possível, ainda não se comprovou nada.
"Amanecerá y veremos", já dizia minha avó.

Dentre as múltiplas falhas das quais o candidato, ou melhor, a candidata da "posição" ao governo era imputada, a mais grave diz respeito a má gestão da maior, e principal, empresa estatal: a Petrobras.
A empresa foi criada pelo então Presidente, Getúlio Vargas, em 3 de outubro de 1953, tem uma produção de pouco mais de 2 milhões de barris de petróleo por dia. Nasceu depois de disputas contra interesses estrangeiros (leia-se: norte-americanos) lideradas pelo general Horta Barbosa.

A Petrobras estava em 2011 no quinto lugar na classificação das maiores petrolíferas de capital aberto do mundo. Em valor de mercado, é a segunda maior empresa do continente americano e a quarta maior do mundo, no ano de 2010. Em setembro de 2010, passou a ser a segunda maior empresa de energia do mundo, sempre em termos de valor de mercado, segundo dados da Agência Brasil. Desmontar um prêmio deste calibre leva tempo. E preparação. Não é para corações fracos.


Mas, seguindo o brevário neo-liberal e prestando atenção a interesses econômicos e estratégicos, a venda da empresa seria um prêmio muito tentador para deixar passar. Ela é um aglutinador de paixões que somente poderia ser quebrado por uma causa grave. O governo disposto a desfazer-se dela sofreria retaliações de lados anteriormente opostos e antagônicos. Antes de ter que passar arnica para as dores, melhor fazer prosélitos...


E nada como ganhar prosélitos no grito! "Sou fera neném", me vem à cabeça. O resto a gente faz tranquilo. Aló, aló, gatas, gatinhas e cachorrões! Vote em mim pra Presidente!





Se eu for presidente, você vai se dar bem...


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domingo, 26 de outubro de 2014

Campanhas de mercado*

Acabaram-se, por fim, as campanhas politicas para eleger funcionários do executivo. 
Que alívio...  Bom, nem tanto assim.
Agora começa o desmonte de uma máquina e a montagem de outra muito diferente. O "set up" logístico que poucos conhecem e muito menos imaginam que consuma muitos recursos (tempo, dinheiro, e principalmente, mão de obra).


Poucos eleitores, mais por uma ignorância atávica do que por maldade, sabem que a escolha não acaba na eleição. É uma pedra jogada num espelho de água (naqueles lugares onde ainda há água suficiente para formar espelhos d'água, claro). As ondas se replicam e as sentiremos por vezes mais de quatro anos regulamentares.

(Re)Clamam aos céus e Deuses quando suas escolhas mostram-se erradas. Ou então, quando uma vez eleitos, os eleitos mostram seus verdadeiros interesses. Já falei que temos um pequeno defeito: a ganância endêmica?
Ricos querem ficar cada vez mais ricos e os pobres querem ser rico$. Pequenos desvios aqui e ali, mas basicamente é isso.
Uma vez tirado isto do caminho, podemos continuar.

As campanhas que acabamos de aturar (sim, pois somos por lei corporativa, obrigados a ceder nosso tempo, na esperança de não prestarmos atenção devida ao que propõem) foram de um desvio proposital de intenções e métodos. Marketeiros profissionais agindo como estagiários na administração com orçamentos astronômicos. Lembra daquele slogan: "Plante que o João garante"? Ele sofreu, neste caso, uma pequena modificação: "Gaste que o João garante". O 'João', no caso somos eles, você e eu.
A conta vem no final, não se engane!


As campanhas foram desenvolvidas em vários níveis de indecência, bastava prestar atenção. A mídia descobriu seu lado histriônico, selvagem, e sectário. Não era suficiente apoiar escancaradamente um candidato, tinham que atacar e difamar o outro. A desinformação como ferramenta de proselitismo. Goebbels se sentiria fascinado pela Era da Informação moderna. Anjos não fazem política.
As campanhas custaram valores absurdos. Tudo doação partidária e desinteressada 
Acredite, se puder. Coisa cada vez mais difícil.


Um dos muitos detalhes a ser percebidos foi o excesso de reforços positivos para manutenção e expansão dos mercados da forma como eles existem hoje, agora. Nenhuma mudança essencial. Isso foi explicito e inequívoco. A mensagem ficou claramente atestada em muitos dos discursos de campanha. Mesmo daqueles que perderam nas primárias. Marina (quem?) propôs algo levemente diferente... e fraco.
Frisson e êxtase passageiros na comunidade ecochata. Comoção geral no resto. A mídia não sabia o que fazer, muito menos o que dizer (!). Mas, foi por pouco tempo. Oposição posicionada. A democracia não ganhou, ninguém ganhou. A força centrífuga desta "Dança das Cadeiras" ejetou Marina até ela se espatifar contra a parede das suas próprias limitações.
Wally, onde está Marina?

Jesus e o próprio Diabo participaram da campanha mais escatológica e sem-vergonha dos últimos tempos.
A política acenava com o pão e os candidatos se encarregavam do circo. 
Carnaval em setembro... e outubro.
Ufa!






(* - Faço questão de publicar antes do resultado da votação)


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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

E se não os treinarmos e eles ficam?

Nestes dias atrás participei de uma discussão sobre qualificação. Mais especificamente, o plano nacional (ProNaTec - Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e  Emprego) e estadual (Etecs, em São Paulo) de cursos técnicos.

Claro que os germes da discussão não foram exatamente os planos em si. O que era discutido era a falta de um profissional minimamente qualificado, ou melhor, da falta de mão de obra qualificada para suprir a demanda da indústria e serviços. Esta falta faria com que o desenvolvimento e a qualidade do produto fossem menores que aqueles seus similares estrangeiros. O argumento maior era que não se formavam colaboradores de qualidade, enfim.
No entanto, e apesar de todos concordarem naquele ponto, passava-se por alto o fato da existência dos programas citados. Me parece que no afã crítico dos participantes simplesmente se ignoravam aquelas iniciativas.

Antes disso, já tinha visto uma daquelas frases que circulam pela internet, que acabou me chamando a atenção: "What if we train our people and they leave? What if we don't train them and they stay?" que me parecia resolvia a questão de forma simples e quase definitiva.

No nosso país, o problema do trabalhador desqualificado, passa invariavelmente pela política.
A educação foi relegada, por nossos governantes todos, a terceiro ou quarto lugares, se acaso isso. Foram criadas gerações inteiras acreditando que, se não sabiam, era porque Deus quis assim. E isso era condição suficiente e necessária para tal. Uma verdadeira estratificação social. Depois essas mesmas crenças foram usadas para manter o povo sob controle e dominância para obtenção de interesses particulares além de qualquer doutrina religiosa. E, esses interesses nem precisavam acreditar no mesmo Deus ou estar na mesma terra.


Alguma vez se perguntou do porquê das descobertas do século XV? Imaginar a terra redonda não era, de forma alguma, uma inovação assim tão inovadora. Pode tirar isso da cabeça. Filósofos gregos, bem antes de Colombo, já haviam formulado a teoria. E ninguém rira deles. Foram "casualmente esquecidos" (what you don't know, won't be able to hurt you).

Um dos maiores paradoxos atuais é que a tecnologia moderna, aquilo que você usa, não o que você compra, se tornou estratégica em certos aspectos. A ponto de países como o Canadá e os Estados Unidos, avalizarem ou não, a compra e venda de empresas criadoras e detentoras de patentes em tecnologia. Colocando em termos mais simples, seria algo como verificar se as laranjas produzidas em Limeira-SP e vendidas em Goiânia-GO têm sementes. Se estas sementes forem viáveis (capazes de produzir pés de laranja, lógico) restringe-se a venda para diminuir e não criar concorrência. Ou evitar coisa pior, Goiânia-GO começar a exportar laranjas para Limeira-SP.
Viu como é simples?
Parece piada de bobo, mas imagine isso ocorrendo exponencialmente... com tecnologia. Com tudo.


Estarrecedor é que ninguém leia além das primeiras camadas superficiais do bordão: diferencial estratégico, e todo mundo ache 'bunitim' e simpático.

O simples fato de fazer as coisas corretamente muda o resultado. O simples fato de "saber" fazer as coisas corretamente, acarreta uma mudança ainda maior. E é isto o que deveria estar sendo debatido. O que os nossos governantes deveriam insistir em aprimorar. Mesmo que eles não cheguem a aproveitar desse resultado. Mas, este nivel de altruísmo, não é o que devemos esperar. Ou, seria o que deveriamos esperar?

Se as propostas são, entre outras, a de trabalhar pelo país, e nós somos (em conjunto) o país, não seria melhorar a qualificação da mão de obra uma das formas -corretas- de executar esse trabalho? E, criar uma 'cultura', através da educação de base, capaz de quebrar os paradigmas antigos de: "Deus quis assim", a bovina passividade e violência sem sentido?

É bem possível que assim fazendo teremos um país, uma sociedade e um povo, melhor.
O produto e o serviço desenvolvido por ele será, induvidavelmente melhor. Estaremos qualificados e, nada mais natural que nosso produto seja espelho dessa nossa qualificação.

Hoje, está tendo a Feira Tecnológica das Etecs do Centro Paula Souza, em São Paulo (de 21 a 23/10, no Pavilhão de Exposições da Barra Funda) e, ao igual que no ano passado, pude perceber exemplos dos primeiros passos tímidos de uma garotada entusiasmada com o que consegue fazer.
Dê-lhes as condições básicas, e estes brotos aparecerão. 



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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sem nós, não vai funcionar...


Estamos no meio das campanhas políticas. De tanto ouvir mesmíces, ou melhor, de recusar-me a ouvir as mesmas velhas diatribes para apascentar bois, me dedico a ler e pensar. Sim, não me escondo de ouví-las totalmente, mas depois de certo tempo as transformo em ruído branco. Marquei meus candidatos e deles cobrarei as promessas de campanha ou posturas e decências. Do resto, prefiro acordar ouvindo o sabiá cantar, às 4h15 da manhã todos os dias, empertigado numa árvore no quintal

De um dos livros que escolhi para ler ("The World Set Free") de HG Wells, escrito em 1913 e publicado em 1914, a introdução na edição de 1921 diz:
"The dream of a World Set Free, a dream of highly educated and highly favoured leading and ruling men, voluntarily setting themselves to the task of reshaping the world, has thus far remained a dream."
("O sonho de um mundo livre, o sonho onde homens, líderes e dirigentes altamente qualificados e favorecidos, voluntariamente se oferecendo à tarefa de remodelar o mundo, até agora permanece um sonho.")
Lucia Santaella nos brinda, em seu ensaio sobre pós-humanismo com a seguinte introdução: "É curioso observar que, em meados dos anos 1980, quando a internet estava emergindo e a simbiose entre os seres humanos e as máquinas apenas se insinuava, em um tipo de ficção que passou a ser conhecida sob a rúbrica de "ciberpunk", jovens escritores já pressentiam os desenvolvimentos e complexidades do estado atual e futuramente prometido das tecnologias."


Posso estar redondamente enganado. Não seria a primeira, nem a última, vez. Mas esta sensação não me larga de que muitos programas implementados recentemente só beneficiam um dos lados da balança, enquanto o outro -o lado das pessoas- fica sempre para depois. Procrastinado abertamente em nome de inovações utópicas ou daqueles "bolos que esperamos, esperamos e... nunca cresceram".


Tomemos um exemplo básico dos afazeres humanos: vejamos o sistema econômico ou mesmo o bancário, como ele é executado no Brasil. Ano após ano, os bancos mostram balancetes com lucros bilionários enquanto o país se arrasta num (sub)desenvolvimento acidental -lamento, não consigo definir de outro modo-. Houve até o desplante de um comentarista de economia repetir que um dos bancos não havia repetido o lucro de anos anteriores, enquanto mostrava um positivo de R$ alguns bilhões.

A indústria recebe isenções e benefícios fiscais, criando bolhas de índices de produção que irão explodir mais adiante na cara do consumidor e do povo que não consome, também. Isto tudo enquanto, ela própria, não melhora nem produto nem produção. E, socialmente continuamos iguais.
Aqui e alí, aparecem bolsões temporários e limitados de inovação, observados e assumidos por alguns setores.
Resumindo, o sistema econômico é beneficiado, enquanto as pessoas são assumidas, unicamente, como consumidores. Mercados...

O paradoxo está em que, ao aumentar produção reduzindo custos com mão de obra, reduz-se também a quantidade de consumo. Visto que, se não há salários, ou então, pagam-se menos salários, haverá menos gente comprando. O 'mercado' diminui na mesma medida. Será que estou tão engando assim?
Será que ninguém pode ver como a transformação das pessoas em simples prestadores de serviços não anula a equação?

Tempos depois de ter publicado este post encontrei esta charge que ilustra diligentemente o post.
Não me furto a compartirla com vocês.





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Referências:

Biagio Jr., N., It's always about people, stupid!
Rüdiger F., Breve história do pós-humanismo:Elementos de genealogia e criticismo em Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, PUC-RS
Santaella, L., Pós-Humano, por quê? REVISTA USP, São Paulo, n.74, p. 126-137, junho/agosto 2007
Quill, E., When Networks Network em Sciencenews, vol. 182 #6 (p. 18) Set. 2012..


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